Por Fernando Torres

Com a proximidade da edição da medida provisória que vai pôr fim ao Regime Tributário de Transição, prevista para este mês, o setor empresarial e agentes do mercado de capitais se articulam para tentar evitar que o governo acabe com o benefício fiscal que permite a amortização do ágio gerado em aquisições de empresas.

O pleito primário das companhias é para manutenção integral do benefício. Mas o Valor apurou que existe disposição para negociação de uma proposta intermediária.

Em vez de simplesmente se acabar com a amortização fiscal do ágio, o uso do benefício deixaria de valer para operações societárias dentro do mesmo grupo econômico, que são as transações vistas como mais polêmicas pela Receita Federal.

Outra mudança seria usar o prazo de dez anos para aproveitamento do benefício. A regra atual fala de cinco a dez anos, mas a maioria das empresas acaba usando o período mais curto.

O coordenador de sistemas de fiscalização da Receita Federal, Daniel Belmiro, nega que a discussão sobre o fim da amortização do ágio seja o motivo para o atraso na edição da MP.

A medida provisória estava prevista para o fim de julho, depois ficou para agosto e agora se fala no fim deste mês para sua publicação no Diário Oficial.

Segundo Belmiro, a demora se explica porque o texto está passando por revisão técnica da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, que estaria concluindo seu trabalho.

Aproveitando a questão do fim do RTT, a Receita Federal incluiu no texto da MP um dispositivo que acaba com o benefício fiscal da amortização do ágio.

Atualmente, quando uma empresa adquire outra, parte do valor pago acima do patrimônio líquido da adquirida pode ser amortizada num prazo de cinco a dez anos. Isso entra como despesa no balanço da compradora para fins fiscais, o que reduz sua base de cálculo de Imposto de Renda e Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL).

Como se trata de um benefício fiscal para o comprador, isso lhe estimula a pagar mais caro em aquisições, o que faz com que mais vendedores aceitem fechar negócio. O benefício, portanto, é um mecanismo facilitador de operações fusões e aquisições.

Desde que se tomou conhecimento dessa iniciativa da Receita Federal, entidades de mercado e representantes das empresas procuraram o governo federal para pleitear a manutenção da dedutibilidade fiscal do ágio.

“Em um momento em que a gente sente que o mercado precisa de gás, uma medida como essa teria efeito danoso”, disse Antonio Castro, presidente da Associação Brasileira das Companhias Abertas (Abrasca), que disse ter escrito uma carta ao ministro da Fazenda, Guido Mantega, manifestando essa preocupação. “Muitas transações [de fusões e aquisições] deixariam de ocorrer”, afirmou.

O que as empresas aparentemente não pretendem questionar é que o cálculo do ágio por expectativa de rentabilidade futura (“goodwill”) seja feito, também para fins fiscais, pelo mesmo sistema usado na contabilidade no âmbito do padrão IFRS.

Essa regra determina que a diferença entre o valor pago numa aquisição e o patrimônio líquido da empresa comprada – normalmente chamado simplesmente de ágio – seja alocada em três parcelas.

A primeira é a mais-valia ou menos-valia dos ativos e passivos adquiridos a valor de mercado, uma vez que o patrimônio da empresa comprada fica registrado por valores de custo histórico. A segunda parcela é justificada – e consequentemente alocada – pela existência de ativos intangíveis da empresa adquirida, como marcas, licenças e patentes.

Somente o que não puder ser alocado nessas duas etapas é que fica como goodwill, que seria a parcela motivada por expectativa de rentabilidade futura.

Pela proposta da Receita, esse goodwill não poderia ser amortizado fiscalmente – o que ainda depende de uma decisão final do governo. Os demais valores alocados nas duas primeiras etapas em outras contas do ativo poderiam ser aproveitados fiscalmente conforme sua depreciação ou amortização.

Fonte: Valor Econômico.