Entrevista com o Especialista

Por Ronnie de Sousa

Especialista: Nilton Facci

Qual sua opinião sobre os cursos de bacharelado em ciências contábeis?

Na ótica do professor, existe o ato de ensinar, quase sempre de qualidade. No entanto, o comportamento do aluno não é o que esses professores desejam. O aluno ainda continua passivo, no sentido de praticamente não participar como elemento atuante em seu próprio processo de aprendizagem. Para esses alunos uma boa aula é aquela em que o professor enche o quadro com resoluções de exercícios, para que possam copiar, tentar repetir em momentos antes da avaliação escrita, e também repetir nessa mesma avaliação. Como entendo que esse comportamento parece ser semelhante em praticamente todos os cursos de bacharelado em ciências contábeis, é possível considerar que alguns conseguem milagres. Evidente que existem ótimos resultados. Basta verificar quantos estão à busca de pós-graduação em mestrado, com vários tentando o doutorado. Essa avaliação, na ótica dos alunos, me parece pouco positiva. Muitos alunos reclamam de professores com quase nenhuma experiência no mercado de trabalho, atuando como contador de empresa.

Esses alunos entendem que professores que “só dão aula” quase nada tem a contribuir. Outro aspecto importante é a facilmente perceptível pouca maturidade dos alunos que entram no curso. São pessoas com 18/19 anos, que ainda não percebem a diferença entre segundo grau e curso superior específico para uma dada profissão. Essa pouca maturidade prejudica a aprendizagem em conhecimentos, embora importantes para a pessoa e não somente para a profissão contábil, são relevantes na formação da pessoa, tais como sociologia, psicologia e filosofia. Além disso, essa pouca maturidade não consegue perceber a importância de conhecimentos em matemática e português. Poucos entendem que, para ser um bom profissional contábil, precisam conhecer “até contabilidade”. Vejo claramente que o objetivo de qualquer curso superior, inclusive o de bacharel em ciências contábeis, é colocar à disposição da sociedade pessoas com o título específico. Se essa pessoa vai se tornar profissional contábil, ou não, não é escolha ou objetivo do curso.

Com certeza, todos que hoje são profissionais contábeis, em toda a extensão da palavra, perceberam claramente que somente com os conhecimentos adquiridos durante o curso é insuficiente. Buscaram acrescentar outros, em vários âmbitos, dependendo de suas escolhas. Outro aspecto que reforça esse pensamente é o fato de que muitos que buscam o curso de bacharel em ciências contábeis o fazem para ter conhecimentos necessários para concursos públicos. Também muitos buscam para complementar aspecto da profissão que atuam. Esse fato é facilmente percebido nas instituições privadas, nas quais existem alunos com uma formação superior, e até pessoas que já são empresários. Evidente que sempre são necessárias análises sobre os processos de ensino, para que a aprendizagem seja cada vez melhor, considerando que essa “fábrica” não pode ser comparada a outros processos industriais. Nessa “fábrica”, a “matéria-prima”, ao contrário de outras, não se desgasta e nem torna-se, fisicamente, outro produto.

Também essa “matéria-prima” precisa compreender que sua atuação é um dos principais fatores que permitem que o processo de aprendizagem seja o melhor possível, de acordo com os níveis de conhecimentos e participações próprias. Essa “matéria-prima”, ao contrário de outras, deveria ser o principal elemento ativo no processo, até mesmo o conduzindo. Talvez esse seja ainda um sonho, mas quem sabe?.

Qual o perfil desejado de um professor de contabilidade?

Que perceba sua importância como pessoa referencial para o aluno. Que perceba sua importância como alguém que desenvolver procedimentos que facilitem a aprendizagem para o aluno. Que conheça o que pretende ensinar. Que demonstre realidades profissionais na área, mesmo que não as tenha realizado pessoalmente.

Que demonstre as várias relações entre o que pretende ensinar e o que ocorre no ambiente acadêmico. Que dê seu exemplo de estudo contínuo, para que não fique somente no discurso. Que demonstre respeito pelo ser humano que está à sua frente, compreendendo dificuldades que possam existir. Que efetue avaliações que possam exprimir os reais resultados da aprendizagem, ou não aprendizagem, dos alunos. Que não utilize subjetividades nas avaliações, principalmente em realizando, ao seu juízo, “conselhos de classe” que possam simplesmente” “passar para frente” o aluno, “jogando” o problema para outro professor e, finalmente, para o mercado. Que compreenda que a instituição de ensino superior precisa, efetivamente ser superior em suas formas de ensino e de avaliação, e não somente uma “passagem festiva” para os alunos.

Existe troca de experiências entre os professores de contabilidade?

No âmbito interno de cada instituição de ensino, esse aspecto possa existir. Nas públicas percebo que essa troca é mais efetiva, do que nas particulares. Esse aspecto decorre do fato de que nas particulares os professores são, em sua maioria, horistas. Estão na instituição somente nos horários de aula. Nas públicas existem número muito maior de professores que escolheram a docência como forma quase única de atuação profissional, o que permite, e até exigem, maiores trocas de experiências. No âmbito entre instituições, até decorrente do aumento de cursos de mestrado e doutorado, essas trocas têm aumentado. Evidente que precisam aumentar vertiginosamente, para que a aprendizagem derivada possa contribuir para a melhoria não só dos processos de ensino, mas também para a pesquisa e a sempre necessária extensão.

É possível ao professor dar aulas de contabilidade sem atuar, ou nunca ter atuado no mercado?

Sem a menor dúvida, desde que esse professor busque conhecer as realidades, compreendê-las e utilizá-las no processo de ensino. Para isso precisa conversar com o mercado de trabalho do contador de empresa. Conversar com dirigentes empresariais. Finalmente, ter a humildade de compreender que a teoria é extremamente importante, desde que responda a situações reais da ciência contábil enquanto conhecimento que precisa contribuir para a melhoria dos indicadores de vida da sociedade. E também compreender que as realidades, também ditas práticas contábeis, precisa ser utilizadas como exemplos da teoria em funcionamento, inclusive para explicá-las.

Existe ligação direta entre a qualificação do professor e o ensino contábil?

Totalmente. Em qualquer profissão a qualificação é fator essencial para a qualidade do “produto final”. No processo de ensino contábil essa qualificação é extremamente necessária. Basta também verificar os indicadores de qualidade que a CAPES utiliza, quando da avaliação dos cursos. A quantidade de mestres e doutores é fator muito relevante. Mas não se deve buscar somente esse elemento quantitativo. A qualificação é necessária, mas precisa realmente ser utilizada no processo de ensino. Muitas vezes o aluno percebe a diferença no professor, quando esse está se qualificando. As formas de apresentar os temas, na maioria das vezes, melhora. O desenvolvimento de exemplos melhoram. No entanto, um fato curioso ocorre: quando o corpo docente da instituição aumenta em sua qualificação, aumenta também a distância entre esse corpo e o desempenho real dos alunos. Com a qualificação, o corpo docente tem aumentado também suas exigências quanto aos desempenhos dos alunos. No entanto, os alunos são “os mesmos”.

Os alunos continuam entrando nos cursos com os perfis semelhantes à época em que o corpo docente não tinha a qualificação agora obtida. Até parece que os alunos são piores do que os anteriores. É preciso ter cuidado com esse aspecto. Também é preciso comentar sobre a atuação do professor, agora qualificado, com Mestrado e Doutorado. Algumas vezes, ele passa a exigir do aluno de graduação o comportamento de seus colegas de mestrado/doutorado. Esse fato aumenta ainda mais a distância entre professor e aluno, causando situações negativas para ambos. É preciso que o professor compreenda que o aluno ainda não “caminhou” pelos mesmos conhecimentos que ele agora detêm. Que o aluno precisa de professor que esteja ao lado, e não acima, como se fosse um “Quase Deus” do saber contábil.

Como desenvolver uma metodologia eficaz para o ensino contábilEntendo que não existe somente uma forma de relacionar processo de ensino com os meios utilizados pelos alunos para aprender. Cabe ao professor estar sempre atento aos vários modelos utilizados pelos alunos, para que desenvolva procedimentos que estejam de acordo com esses modelos. Alguns alunos conseguem aprender somente ouvindo. Outros precisam escrever, para depois repetir. Outros ainda precisam que o professor esteja mais junto deles, para que as dúvidas sejam expostas. Alguns alunos veem o professor como uma extensão dos pais. Todos esses aspectos existem numa mesma sala de aula. Evidente que não é fácil atender a todos, mas é preciso que o professor, pelo menos, compreenda que eles existem. Esse desenvolvimento está muito ligado ao perfil desejado do professor. Precisa conhecer o que é ser professor. Todos os aspectos ligados a essa profissão. Precisa estudar comportamentos de alunos, enquanto pessoas que buscam um conhecimento, no caso do contábil, muito ligado a uma profissão. Compreender que muitos alunos do curso estão na busca de melhoria econômica de vida.

Qual sua opinião sobre o Exame de suficiência do CFC?

Entendo que o exame é necessário. No entanto, o discurso do CFC quanto aos resultados obtidos até então, no momento em que reclamam, segundo seu entendimento, do baixo nível de aprovação, até como indicador da qualidade do curso. Ora !!!. Se desejam que a aprovação chegue a 100%, o que para alguns seria indicador de alta qualidade dos cursos, é simples: basta não exigir. Assim teremos, novamente, “a aprovação” de 100%. Um fato que vejo negativo é que o CFC não permite informações detalhadas sobre o desempenho individual de cada instituição de ensino. Talvez por tentar não desenvolver rivalidades, ou mesmo a utilização desse desempenho como elemento de marketing pelas instituições.

O baixo desempenho dos alunos no Exame de Suficiência deve ser atribuído à instituição de ensino, alunos ou professores?

A nenhum deles. Entendo que o desempenho é uma mistura de vários elementos. É preciso compreender que nem todos os alunos formados fazem o exame. Muitos alunos com ótimo desempenho acadêmico não buscam a profissão contábil. Inclusive é importante ressaltar que para ser professor de contabilidade não é obrigatório o registro no CRC do estado. Assim, a pessoa pode ser tornar professor sem que tenha feito o exame. Colocar qualquer dos elementos acima como fator de interferência no resultado é não compreender o conjunto de variáveis que podem influenciar o resultado. Entendo que esse indicador deve ser utilizado, assim como quaisquer outros, para que os processos de ensino e aprendizagem sejam analisados. Entendo também que a instituição de ensino não pode utilizar somente esse indicador como atribuição de alguma pretensa qualidade, ou falta dela.

O bacharel em ciências contábeis esta preparado para o mercado?

É sabidamente por todos os envolvidos que não. O objetivo da instituição de ensino contábil não deve ser esse, embora existam discursos, e até mesmo no site, frases nesse sentido. Sem qualquer pergunta a respeito, os próprios alunos percebem que não estão preparados, bastando conhecer aspectos reais nas empresas e nos escritórios de contabilidade. Entendo que essa percepção é importante, para que o aluno veja a passagem pelo curso como algo não somente obrigatório, por lei, mas extremamente importante para o melhor desempenho como profissional contábil.

Conclusão

Primeiramente, quero agradecer a oportunidade. Nem sempre é possível discutir esses assuntos com profissionais de vossa qualidade. Entendo que essas discussões são importantes, principalmente quando percebemos que o perfil do aluno mudou no decorrer dos últimos 10 anos, em que as ferramentas de Tecnologia de Informação e Comunicação obtiveram enorme desenvolvimento. As relações dos alunos com essas ferramentas devem ser consideradas no processo de ensino e de aprendizagem. O enorme desafio é compreendê-las, não como algo que vai substituir o professor. MUITO AO CONTRÁRIO. Acentuam ainda mais a importância de alguém que ajude o aluno a bem utilizá-las. A não considerá-las somente algo que proporcione distrações e lazeres.

Em segundo, gostaria imensamente de conhecer os comentários de outros professores, evidentemente com as devidas providências quanto ao sigilo. De minha parte, tem a liberdade de disponibilizar esses comentários, sem qualquer preocupação com o sigilo do nome.

Novamente, muito grato pela oportunidade, esperando ter ajudado em seus estudos e nas discussões.

Fonte: Essência Sobre a Forma

Via:www.joseadriano.com.br/profiles/blogs/entrevista-como-anda-o-ensino-cont-bil-no-pa-s

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