Por Mauro Negruni*

Parece um despropósito de minha parte comparar um pregão eletrônico de compras (leilão reverso) com um torneio. Parece mas não é.  Há uma semelhança bastante acentuada nas características que permeiam os dois assuntos e outros tantos que incluem o uso da tecnologia para facilitar a vida dos humanos.

A palavra “robô” está associado na literatura especializada com o termo “robota”, palavra de origem checa, cujo sentido é trabalho obrigatório ou forçado. Comumente associado apenas a robôs físicos, aqueles que vemos nas redes sociais ou nos telejornais – e num torneiro de robótica – o termo também aplica-se aos programas de dispositivos como computadores, tablets e smartphones. Alguns segmentos passaram a adotar o uso de robôs de tal forma que atualmente é quase impossível ganhar leilões governamentais de forma humana, tal a discrepância de velocidade de lances que podem ser programados nos programas robôs com esta finalidade.  Ainda que sejam bastante difundidos, como os robôs que utilizam GPS (Global Positioning System), por exemplo,  o uso comercial no ambiente de escritórios (backoffice) ainda parecem não acreditar que o “sol nasce para todos”.

Várias tarefas rotineiras de escritório nas empresas – que pode ser facilmente absorvida por robôs – ainda são diuturnamente executadas por pessoas. Muito provavelmente por falta de conhecimento sobre os programas robôs existentes no mercado brasileiro, empresas investem a cada dia em mão de obra de baixa remuneração para execução de tarefas repetitivas. Quanto mais exigente intelectualmente for a tarefa (e suas responsabilidades e consequências) mais raros são os profissionais e portanto mais disputados pelo mercado, óbvio.

É quase uma incoerência investir em robôs que podem executar tarefas dos humanos e portanto desempregá-los. Esta lógica parece vil ou “sacana”, mas no fundo é mais justa e mais inteligente. Quais são as razões que levam humanos a realizar tarefas repetitivas, e, portanto desagradáveis? Muito provavelmente é porque não estão conseguindo colocar-se no mercado de melhor forma pela pouca qualificação.

Pessoas motivadas e qualificadas não pretendem realizar tarefas rotineiras por muitos meses (ou anos). Então a lógica que vale é pensar o que fazer para qualificar pessoas e como torna-las efetivas nas equipes de trabalho. É natural a resistência, afinal o assunto é ainda recente. Mas vejamos o caso que posso mencionar porque conheço muito particularmente: entregar livros digitais no ambiente SPED (Sistema Público de Escrituração Digital) tem uma rotina mensal bastante significativa nas empresas. Não propriamente a tarefa em identificar situações e como corrigi-las e melhorar processos. Este sim é o trabalho intelectual humano e ímpar. Falo do trabalho repetitivo de acionar o sistema que gerará os livros digitais (geração de arquivos). Logo após acionar o Programa Validador e Assinador – PVA e submeter os arquivos para validação. Em seguida assinar e transmiti-los para o ambiente nacional. Estas tarefas podem sem executadas por programas robôs, por exemplo:

http://g1.globo.com/tecnologia/blog/seguranca-digital/post/robos-participam-de-pregoes-compram-ingressos-e-atuam-na-bolsa.html

http://www.decisionit.com.br/workmatic

https://www.waze.com/pt-BR

Todos os meses recomeça a rotina nos escritórios de contabilidade e nos escritórios das organizações (empresas públicas e privadas). A propósito, pense numa grande rede de varejo onde há centenas de lojas que precisam cumprir a entrega de EFDs (fiscal, contribuições, contábil ECD, contábil-fiscal ECF). Qual o ganho efetivo para a companhia? Quando encerrar-se um período de apuração o que de proveitoso poderá ser utilizado para vender mais ou produzir melhores resultados? E o pior: o próximo mês está em curso e será uma questão de dias para que rotina se reinicie.

O eSocial vem aí. Será mais trabalho repetitivo. E será realizado manualmente?

*Mauro Negruni é Diretor de Conhecimento e Tecnologia da Decision IT e membro do grupo de empresas participantes dos projetos piloto do SPED

Fonte: Coluna de Mauro Negruni no Baguete

This article has 2 comments

  1. Flavio

    Bom, ótimo texto como sempre, mas as coisas não são tão simples assim quando se trata de SPED e obrigações acessórias, elas são complexas possuem erros na geração dos arquivos pelos softwares, valores precisam ser conferidos, existem atualizações constantes, com certeza não é trabalho para robô, pelo menos não nesta década.

    Abraço!

    • Mauro Negruni

      Prezado Flávio, permitama-me discordar.

      O trabalho proposto é apenas o BRAÇAL. Exatamente para que as pessoas possam se dedicar a analisar valores, situações e cuidar do que os robos não são (e nem serão capazes de fazer).

      Veja um exemplo: https://www.youtube.com/watch?v=6Qul8Qo5XNc

      A apuração poderá ser feita em qualquer sistema (software), mas submeter dezenas de livros digitais para os PVAs pode ser tarefa robotizada. Até porque os robôs são inteligentes a ponto de perceber que houve erro e gerar um alerta para o analiast fiscal (pelo menos o nosso robo faz isso).
      Todavia, concordo plenamente que tarefas de conciliação da apuração e principalmente controles devam ser tarefas de humanos