Tecnologias invadem as diferentes áreas de trabalho no Brasil

A automação de funções profissionais ameaça 54,37% das categorias profissionais brasileiras. O resultado está em estudo do Laboratório de Aprendizagem de Máquina em Finanças e Organizações (LAMFO) da Universidade de Brasília (UnB) que analisou 2.046 ocupações de um universo de 2.602 presentes na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) em todo o País.

A profissão “contador” tem probabilidade de automação estimada de 48,74% – média. De acordo com a pesquisa, analisando a descrição dessa ocupação na CBO, é possível identificar habilidades potencialmente fáceis de se automatizar, tais como “preencher formulários específicos inerentes à atividade da empresa” e “calcular índices econômicos e financeiros”.

Ao mesmo tempo, a profissão envolve tarefas de difícil automação, como “assessorar a gestão empresarial”, “intermediar acordos com os sindicatos” e “demonstrar flexibilidade”. Por isso, as análises destacaram que a probabilidade de automação, nesse caso, não é, de fato, um valor mediano. Isso significa que há habilidades mais ou menos complexas intrínsecas à mesma classe de trabalho e outras que podem perfeitamente ser automatizadas.

O coordenador da pesquisa e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da UnB, Pedro Henrique Melo Albuquerque, afirma que o resultado, ainda que assuste, está dentro do esperado pelo grupo de pesquisa e em consonância com os panoramas traçados no cenário internacional. “O Brasil apresenta probabilidade de automação bastante parecida com a de países europeus, com os Estados Unidos e com vizinhos como Uruguai”, destaca Albuquerque.

De acordo com a pesquisa, desde 2016, o número de empregados para as CBOs caracterizadas como possuindo alto nível de automação aumenta ao longo dos anos. Caso a curva ascendente de profissionais dedicados a funções altamente substituíveis por novas tecnologia se concretize, cenários distintos surgem no horizonte dos trabalhadores.

A projeção otimista é que as empresas continuem investindo em capital humano e empregando essa grande parcela da população. A outra possibilidade, caso as empresas decidam por automatizar as profissões com alta chance de automação, é que aproximadamente 30 milhões de empregos sejam colocados em risco até 2026.

“Esse cenário é o mais pessimista. Foi traçado levando em conta que nenhuma providência seja tomada. Porém, não pode ser descartado de maneira alguma, já que a automação é muito positiva para as empresas”, avisa Albuquerque.

Além de refletir sobre o grau de investimento em tecnologias, é necessário analisar como o mercado se comporta e como as políticas públicas irão encarar essa questão. Por isso, o estudo realiza duas recomendações principais.

A primeira sugestão é para a necessidade de políticas públicas que invistam prioritariamente nas atividades com demanda em potencial – aquelas que necessitam ser preenchidas por trabalhadores com habilidades de difícil automação. “O desafio enfrentado pelo governo brasileiro em um futuro próximo está em lidar com esse cenário garantindo treinamento suficiente para os trabalhadores (principalmente os poucos qualificados) para atuar em outros ramos de atividades cujo nível de automação seja menor”, aponta o relatório.

A segunda é que os resultados do trabalho inspirem as organizações a remodelarem a seleção de candidatos. “Será preciso buscar profissionais mais completos, reajustando as competências requeridas”, pontua Pedro Henrique Melo Albuquerque.

No caso da contabilidade, essa é uma adequação que as grandes empresas já começaram a realizar. Há algum tempo, o mercado exige profissionais que não se satisfaçam apenas com o preenchimento das obrigações contábeis e a responder as exigências do Fisco. Ainda que o perfil já tenha começado a mudar, o temor às novas tecnologias persiste.

Contudo, para o especialista no tema, Mauro Negruni, as novas ferramentas não irão conseguir substituir todo o trabalho do profissional contábil. Pelo menos não em um futuro próximo.

A saída é investir em qualificação e não resistir às novidades. Pelo contrário, aqueles que souberem lidar com automação, robôs, softwares modernos e usar tudo a seu favor são os mais fortes concorrentes a crescer.

Robotização pode preocupar mais do que automação de tarefas 

Mais do que a automação das tarefas, a crescente robotização daquelas atividades feitas apenas por seres humanos pode impactar ainda mais o mercado. Em geral, o robô não trabalha de forma tão autônoma (ou autômata, no caso das máquinas) como vemos nos filmes de ficção científica. É bastante comum que um ser humano tenha de supervisionar, orientar ou programar o trabalho do robô. Mesmo assim, eles é que devem impulsionar uma grande revolução.

O diretor de Conhecimento e Tecnologia da Decision IT, Mauro Negruni, salienta que é importante diferenciar os dois conceitos: automação e robotização. A primeira é entendida como a utilização de processos computacionais (como Inteligência Artificial e deep learning) para acelerar ou deixar automático algum dos processos da produção. “É quando as máquinas conseguem fazer coisas que os humanos não fazem”, sintetiza o especialista.

Já a robotização é todo tipo de comportamento de uma máquina ou de um programa que simula o comportamento humano. “Isso não significa que as máquinas vão eliminar a necessidade de um ser humano operando-as. Em alguns casos, sim; em outros, admito que não”, ressalta Negruni.

Esse assunto será abordado no Conexão SPED 2019. Confira esse e outros temas aqui.

Se, em alguns setores, a presença de robôs já é bastante comum desde os anos 1990, como no caso das montadoras de automóveis e outros processos fabris, em áreas como a Contabilidade e a Medicina, por exemplo, elas começaram a chegar mais recentemente. Com o avanço das tecnologias, as máquinas passaram a fazer um trabalho mais minucioso e ganharam a capacidade de analisar e cruzar dados. Por isso, sua chegada à contabilidade se tornou inevitável.

Os robôs podem ser aliados na diminuição de uma das maiores dores de cabeça dos profissionais contábeis: a burocracia. Quando voltado à resolução de questões ditas operacionais, a robotização pode contribuir para garantir a geração e até mesmo o envio de informações ao Fisco com agilidade e segurança.

Contudo, ainda é preciso que todas as informações geradas pelas máquinas passem por uma análise minuciosa dos profissionais. Mesmo assim, o investimento vale a pena.

“Quando uma pessoa qualificada é colocada para fazer o trabalho braçal, o cérebro dele também fica ocupado. No caso, por exemplo, de uma conciliação bancária, que é algo simples de o robô fazer em segundos, não tem por que não repassar a responsabilidade a uma máquina, descreve o especialista. Para ele, “trata-se de liberar a mão e o cérebro humano para fazer tarefas mais nobres de raciocínio e planejamento, que são efetivamente tarefas que o ser humano gosta de fazer e se sente desafiado”.

 

Inovações podem se tornar positivas na atuação de contadores 

As inovações podem, inclusive, servir de oportunidade aos contadores para investir o tempo na qualificação do serviço prestado. Para o diretor da Roit Consultoria e Contabilidade, Lucas Ribeiro, cabe ao profissional desenvolver habilidade para além do preenchimento das exigências fiscais. É preciso se capacitar para a utilização das máquinas a seu favor e ampliar a capacidade de oferecer um serviço realmente pertinente aos negócios. –

“Os contadores brasileiros foram, ao longo do tempo, sendo moldados para atender ao Fisco, e não para atender às empresas e os empresários. Isso é o que nós propiciamos”, destaca Ribeiro. A empresa lançou, recentemente, uma fintech chamada Roit Bank, que integra as apurações fiscais aos lançamentos e classificações contábeis utilizando Inteligência Artificial.

Ribeiro explica que a ideia surgiu a partir da percepção de que as empresas enfrentavam muita dificuldade no gerenciamento das Contas a Pagar e Contas a Receber. “Em geral, elas fazem o pagamento em uma etapa, a análise fiscal em outra e a contabilidade em uma terceira etapa. E ainda tem mais uma etapa que é a gestão dos contratos que normalmente sequer é feita. O que fizemos foi desenvolver uma solução tecnológica baseada em Inteligência Artificial que integra todas essas frentes”, sintetiza.

Em vez de diminuir o número de profissionais atuantes no mercado, Ribeiro garante que o efeito deve ser exatamente o contrário. A ferramenta libera o profissional para a realização de atividades relevantes para a gestão empresarial. “O que existe de substituição e de aumento de velocidade com o uso de ferramentas tecnológicas como o Roit Bank é principalmente em atividades operacionais, e não estratégicas”, diz o especialista.

Para Ribeiro, no Brasil, o contador foi conduzido a dar foco à área fiscal, e não à área contábil. Isso ocorreu devido às características do próprio sistema tributário em que vivemos. “A partir do momento em que nós conseguimos colocar a tecnologia para executar boa parte daquilo que não agrega valor para a empresa, estamos liberando esses profissionais para que possam se dedicar ao que realmente vai agregar”, reflete.

Ele admite que não é raro que a primeira reação de clientes em potencial, tanto empresários quanto profissionais dos departamentos tributários e fiscal, não seja positiva. “Eles se preocupam com o desemprego e o boato de que não vai mais existir contabilidade.”

A resposta de Ribeiro é categórica: “Isso não existe, e a prova é que nós mesmos temos previsão de contratar mais 100 contadores ao longo deste ano. A contabilidade é extremamente necessária e tem se provado cada vez mais importante para o ambiente de negócios”.

Além de fechar o ano com uma equipe maior, a organização criada no Brasil já está entrando em um momento de internacionalização. “Fechamos, no início deste mês, a contabilidade de empresas na Holanda, usando Inteligência Artificial. Também abrimos uma unidade no Vale do Silício há pouco tempo e estamos em um processo de recrutamento de desenvolvedores por lá também para que tenhamos o melhor em tecnologia sempre”, informa Ribeiro.

 

Principais benefícios para as empresas e os profissionais

  1. Liberação da mão de obra. Tem muita gente que fica com medo de robotizar ou de participar de um projeto de robotização temendo a perda do espaço na empresa. Porém, os ganhos são operacionais. Quem realiza apenas esse tipo de tarefa realmente precisa ficar atento e buscar qualificação.
  2. Maior aproveitamento de recursos computacionais. Você pode ganhar tempo de trabalho ao colocar o robô para realizar parte do serviço em horários alternativos. Algo bastante comum é aproveitar a madrugada para fazer isso, quando os servidores estão mais livres e a velocidade de processamento da informação é enorme.
  3. Segurança e padronização das informações geradas. O robô segue padrões únicos e bem estabelecidos para o processamento de dados contábeis e tributários. Esse padrão pode ser criado em conjunto com as empresas e/ou profissionais envolvidos de acordo com o seu desejo e necessidades.

Fonte: Mauro Negruni/Decision IT

Fonte: Jornal do Comércio – Caderno JC Contabilidade

Comente aqui:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Time limit is exhausted. Please reload CAPTCHA.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.