Contas públicas no vermelho, 13,2 milhões de desempregados, vendas em queda e baixa procura por serviços. Não faltam motivos de preocupação com o desempenho da economia brasileira. Diante do cenário de angústia, o apetite pela resolução dos problemas cresce, mas o cardápio de opções para destravar a retomada não é tão recheado quanto o disponível em outros momentos de dificuldades no país. Segundo economistas, a reação depende, essencialmente, de projetos que não saem do forno do dia para a noite, como mudanças no sistema tributário e na Previdência Social.

Sem saídas mágicas, a avaliação de parte dos especialistas é de que, enquanto as reformas não são aprovadas no Congresso, o governo Jair Bolsonaro pode — e deve — buscar ações com capacidade de gerar benefícios pontuais. Abaixo, confira como três países deixaram momentos de dificuldades para trás.

Portugal

Portugal pegou carona na crise financeira global que explodiu em 2008, após o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos. Com dificuldades nas contas públicas e desemprego galopante, o país acertou três anos depois, em 2011, empréstimo de 78 bilhões de euros com o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu. Em contrapartida, o governo do então primeiro-ministro Pedro Passos Coelho comprometeu-se a adotar medidas como aumento de impostos, além de cortes nos salários e aumento na carga horária de trabalho do funcionalismo.

— Portugal fez um ajuste fiscal espetacular, mais rígido do que o nosso. Reduziu gastos, e o país está crescendo. A situação econômica é boa — afirma o economista-chefe da Genial Investimentos, José Márcio Camargo, professor da PUC-Rio.

Em abril de 2015, durante viagem a Lisboa, o então vice-presidente Michel Temer (MDB) não poupou elogios a medidas adotadas pelos portugueses. Na ocasião, Temer disse que o ajuste fiscal do país europeu seria levado como exemplo ao Brasil, que à época começava a enfrentar recessão.

O ano de 2015 em Portugal também foi marcado pela ascensão de governo ancorado em uma coalizão de partidos de esquerda. Ao tomar posse em novembro, o primeiro-ministro António Costa prometeu estancar medidas de austeridade. Sua promessa provocou repercussão internacional.

Em reportagem de abril de 2017, a revista britânica The Economist afirmou que Portugal estava superando a crise econômica “sem recorrer a fórmulas de austeridade”. A publicação citou à época que o país conseguiu reduzir o déficit fiscal ao mesmo tempo em que voltou a aumentar salários e aposentadorias. Em 2018, o Produto Interno Bruto (PIB) local cresceu 2,1%, segundo o FMI.

— Portugal passou por boom de turismo. A questão é que a população deles é muito menor do que a nossa. Por isso, pode ter estratégia mais baseada nesses serviços. Ainda assim, é necessário que Portugal dê estímulo a setores tecnológicos. Do contrário, pode ter surto de crescimento e depois parar. Não podemos pensar a indústria moderna separada do setor de serviços — avalia o economista Nelson Marconi, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Espanha

Assim como Portugal, a Espanha sentiu os efeitos da crise financeira global de 2008. Sofrendo também com o estouro da bolha imobiliária local, o país bateu na porta da União Europeia, em 2012, para pedir empréstimo de 100 bilhões de euros. Em contrapartida, o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy, de centro-direita, buscou reduzir gastos públicos e promoveu mudanças no sistema tributário.

Ao mesmo tempo, os espanhóis passaram a olhar com mais atenção ao mercado internacional, a fim de aumentar exportações de manufaturados. A base industrial mais diversificada do que a dos vizinhos portugueses é apontada por analistas como um dos diferenciais da economia local.

Outra medida adotada por Rajoy foi a reforma trabalhista de 2012. O modelo espanhol, aliás, recebeu elogios do ex-presidente Michel Temer, que emplacou mudanças nas leis entre empregados e empregadores brasileiros em 2017. À época, em entrevista a Zero Hora, a economista espanhola Sara de la Rica, professora da Universidade do País Basco (UPV), mencionou que o governo Rajoy flexibilizou relações, diminuiu poder sindical e ajudou a gerar trabalhos, mas com piores condições.

— Uma reforma trabalhista não cria empregos se o PIB estiver em baixa. Pode evitar a destruição de tantas vagas — disse a especialista à época.

Em 2018, a economia espanhola avançou 2,5%, conforme o FMI.

Estados Unidos

Donos da maior economia do mundo, os Estados Unidos são outro país que conseguiu deixar dificuldades no retrovisor. O período de crise americana citado por analistas é bem mais distante do que os de Portugal e Espanha.

Em 1929, os Estados Unidos enfrentaram o que ficou conhecido nos livros de História como a Grande Depressão. Com tombo na atividade econômica, os americanos viram o poder aquisitivo da população despencar e a pobreza se espalhar pelo país.

A saída da bancarrota começou a ser desenhada quando Franklin Roosevelt assumiu a presidência, em 1933. À época, Roosevelt lançou o programa batizado como New Deal, caracterizado por reformas e obras públicas para tirar o país do fundo do poço.

— Para sair da depressão, os americanos não reduziram o tamanho do Estado. Mostraram que é possível sair de uma crise de maneira civilizada. O governo brasileiro (de Jair Bolsonaro) deveria rever a meta fiscal para não ter contingenciamento tão grande de receitas — afirma o economista José Luis Oreiro, professor da Universidade de Brasília (UnB), crítico à postura liberal da equipe econômica.

Fonte: GauchaZH

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