Segundo pesquisa da Gartner, até 2022 o mercado de soluções de RPA (Robot Process Automation) movimentará um total de US$ 2,4 bilhões e estima-se que 85% das grandes organizações terão adotado alguma forma de automação. Diante desse cenário, pode-se dizer que já não é mais novidade que essas soluções estão modificando o modelo de trabalho das empresas, inclusive as brasileiras.

Não é preciso mais imaginar como seria automatização dos cálculos dos tributos ou até mesmo a geração e validação dos livros fiscais, pois essas e outras atividades já podem ser robotizadas e executadas com precisão. Mas como trazer essa tecnologia, que muitos acreditam ser um alto investimento, para dentro da organização e fazer com que as equipes contábeis e fiscais comecem a usufruir desses benefícios?

Já existem diversos cases de empresas brasileiras, que estão conseguindo implementar a robotização em seus processos. A Decision IT é uma das empresas brasileiras especializadas em prover soluções fiscais inteligentes e focadas no atendimento ao Sped. Ela oferece soluções para importantes organizações, como a Gerdau e as varejistas Lojas Koerich e Lebes, dentre outras.

Essas empresas são alguns exemplos de que é possível inserir a robotização em seus processos e conseguir resultados a curto prazo. Para o diretor de Conhecimento e Tecnologia, Mauro Negruni, a utilização das novas tecnologias é um caminho sem volta tanto para as empresas quanto para os profissionais das áreas contábil e fiscal.

JC Contabilidade – O que é robotização?

Mauro Negruni – O que eu tenho colocado especialmente para as áreas que temem a ideia da robotização ou que desconhecem o conceito – e o desconhecido é temido de maneira geral, o que faz com que essas duas coisas estejam combinadas, é que as pessoas devem se livrar da ideia de que os robôs são apenas aqueles dos filmes de ficção científica. Eles estão presentes no âmbito tributário e contábil e podem ser tudo aquilo que está embarcado em um computador e que passa a fazer o trabalho de um ser humano. Hoje, todo aquele trabalho repetitivo que um humano faria, como, por exemplo, comparar planilhas, comparar relatórios, comparar leis, sentenças e documentos, são trabalhos que podem ser feitos através de RPA. A gente usa uma técnica chamada de Robot Process Automation (RPA), que é e que uma das técnicas mais comuns e é própria da robotização de processos. Ela é específica para qualquer área de processo e já vem sendo usada na área tributária, no direito e em outras tarefas administrativas.

Contabilidade – Então se justifica que as pessoas temam um pouco perder seu espaço nas empresas?

Negruni – Elas temem por que imaginam que o programa robô vai tirar o lugar dela, o posto de trabalho dela. Minha dica para os profissionais de contabilidade que fazem o trabalho rotineiro é que eles vão trabalhar em uma empresa que faz automação de processos para que aquele conhecimento que ele tem seja possível de entregar para um robô. Parece muito paradoxal. O robô tira meu emprego e eu vou trabalhar em uma empresa que faz robô para treinar o robô para tirar o emprego de outros. Se esse profissional não fizer isso, outros vão fazer.

Contabilidade – Ou os profissionais podem buscar qualificação e virar o jogo?

Negruni – Há dois caminhos. Para aquele profissional que faz efetivamente tarefas burocratizadas, que envolvem papel e serviços que são manuais exclusivamente, certamente vão perder o posto de trabalho dele. A pessoa que faz só preenchimento de guia e apuração de impostos, está fadada a ter seu trabalho substituído por um programa-robô. Já aqueles profissionais que trabalham em um ambiente que exigem mais conhecimento, onde parte do trabalho deles é manual e outra parte é intelectualizado, no sentido de propor melhorias, de entender as leis, prestar consultoria e orientar clientes, o robô não consegue fazer de forma fácil e com empatia.

Contabilidade – Essa empatia é essencial, inclusive para ir além do que a programação já faz e pensar nas pessoas que trabalham na empresa, em como melhorar aquele negócio com uma visão global?

Negruni – Sim, é a visão da cultura da empresa. Levaria muito tempo para ensinar um robô a fazer isso e nem é a ideia, por que ele apenas repete o que a gente ensina e não trará visões inovadoras. Um bom exemplo é a realização da conciliação bancária. Hoje em dia tem 500 programas que fazem isso. São coisas que vão fazer parte do nosso dia a dia, por que o robô tem uma grande vantagem em relação ao ser humano. Ele é muito disciplinado, então vai fazer exatamente como a gente programou. Além disso, ele é infinitamente mais rápido do que o nosso cérebro e funciona quase na velocidade da luz.

Contabilidade – Você acredita que a robotização pode criar ou abrir espaço para outras formas de prestação de serviços contábeis, como a contabilidade digital, bastante comentada? Tem outras tendências que você acredita que podem se fortalecer com a maior robotização?

Negruni – Eu acho que sim. Eu não gosto muito do termo contabilidade digital, por que para mim isso é meio de fazer e não um conceito novo. É como no caso do banco. Banco hoje só existe no meio digital. Existe a agência física, mas ali tem uma pessoa que opera um computador. Não tem como não ser assim e a gente não chama de banco digital. Tem as fintechs, que são os chamados bancos digitais, mas todos são digitais em essência. E isso já está acontecendo assim. Aqui na nossa empresa, e em várias outras, nós temos vários robôs que fazem essa parte da conciliação tributária e de captura das informações dos ERPs através de robôs.

Contabilidade – Mas no caso da contabilidade online, quando usamos esse termo, estamos nos referindo especificamente àquele tipo de serviço contábil que é prestado quase exclusivamente online. Assim como existem as “fintechs”, como são chamados os bancos digitais?

Negruni – Sim, isso já existe. Tem vários exemplos: a Roit, a Contabilizei, que é precursora desse modelo. Mas o que quero dizer é que mesmo os escritórios de contabilidade ditos tradicionais não vão receber papel. Agora, por outro lado, eu não acredito que a relação entre o cliente e o escritório de contabilidade vai se dar exclusivamente pelo meio digital. Mesmo as empresas de comércio eletrônico (e-commerce) têm pelo menos um chat para você poder falar com alguém lá quando precisa fazer uma devolução, tirar uma dúvida, cancelar, etc. Se tudo der certo eu uso o meio digital, mas se alguma coisa der errado eu quero falar com alguém. Isso é do ser humano. Ela poderá se sentir desamparada se não houver uma pessoa disposta a escutá-la.

Contabilidade -Todas essas mudanças ainda vão levar quanto tempo para acontecer?

Negruni – Estamos só começando essa caminhada. A cada três anos, temos uma revolução tecnológica, então quando passarmos a ter a computação quântica, os nossos processadores serão aumentados em 250 vezes a sua velocidade. Isso ainda vai demorar. Em compensação, os riscos que nós temos na utilização de redes abertas sem fio, já são iminentes.

Contabilidade – A segurança digital deve preocupar bastante o setor contábil?

Negruni – Deve preocupar, até por que o contador é um dos principais alvos da nova Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Ele tem dados muitos sensíveis na mão e no momento em que isso vaza é um problema. Isso serve para o escritório de contabilidade, para a empresa de auditoria, enfim, para uma série de profissionais que vão precisar ter esse cuidado ainda maior ao utilizar novas tecnologias.

Contabilidade – E como se proteger?

Negruni – Algumas recomendações são bastante básicas: senhas longas, senhas individuais e cada equipamento sendo monitorado pelo Wi-Fi. Hoje existem programas que fazem a monitoração do tráfego do Wi-Fi para ver se nenhum elemento está consumindo mais do que deveria. Os dois ativos mais valiosos hoje em dia são Informação e Reputação e eles estão bastante relacionados. Já houve casos de sequestro de dados de grandes companhias que perderam sua credibilidade. É um tema a ser explorado e a se manter em pauta.

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