A economista Silvia Matos diz que o Brasil tem de seguir com a agenda de reformas independentemente da qualidade do cenário externo. Para a pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), o Brasil precisa melhorar o ambiente de negócios se quiser almejar um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) mais próximo de 3%.

Embora as reformas, como a tributária, sejam uma prioridade na agenda do país, ela se diz mais pessimista com o avanço das propostas no Congresso. “Se o cenário fosse um pouco mais otimista, seria possível avançar e ter pelo menos uma parte da reforma tributária saindo este ano, mas eu acho que vai ser difícil”, afirma.

A seguir os principais trechos da entrevista.

Qual a sua avaliação sobre o resultado do PIB de 2019?

Em primeiro lugar, acho que foi um resultado razoável. Esperava um número um pouquinho melhor, mas foi 0,5% (de crescimento no quarto trimestre) e veio em linha com o que estávamos esperando. Mas a gente observou também uma disparidade entre setores, não só no último trimestre, mas no ano como um todo. O setor de serviços, aqueles voltados às famílias e ao comércio com mais força, assim como o consumo das famílias, foram mais fortes e perenes ao longo dos trimestres. E o lado ruim foi o investimento rateando, assim como a indústria de informação.

No início de 2019, as projeções eram de crescimento de 2,5%, mas o PIB cresceu 1,1%. O cenário parece difícil: o que fazer pra essa expectativa não minguar novamente?

Esse é o grande desafio. Eu gostaria só de pontuar que, apesar de o número ser muito parecido de 2019 e 2018, a gente está vendo uma foto da média do ano. Só que a história foi um pouquinho diferente. A economia brasileira começou 2018 bem e depois desandou fortemente, com greve dos caminhoneiros, piora do cenário internacional e uma eleição extremamente conturbada que piorou o ambiente doméstico e contaminou 2019.

E o país teve um começo de 2019 muito ruim, com uma queda no PIB do primeiro trimestre.

Houve um pouco de azar também. Brumadinho provocou um impacto muito grande da indústria extrativa e temos de lembrar (da crise) da Argentina, que impactou a indústria fortemente. No passado, o Brasil poderia ter crescido um pouquinho acima de 1,5% se a Argentina não tivesse entrado em recessão. Segundo nossos cálculos, os eventos de Brumadinho e da crise argentina tiraram quase R$ 50,5 bilhões do nosso PIB em 2019.

Mas eu acho que diante das conquistas que nós tivemos, com redução da taxa de juros e da inflação, melhora do mercado de crédito, o país colheu pouco, sobretudo em termos de investimento.

Com essas conquistas, por que o investimento não voltou?

Eu diria que foi por um ambiente doméstico muito incerto. Nós produzimos no Ibre um indicador de incerteza econômica e é muito interessante notar que a incerteza econômica continua muito elevada, o que impacta a decisão de investir.

O investimento precisa de previsibilidade, de um horizonte minimamente definido. Infelizmente parte de 2020 pode ser contaminado e novamente o país pode ter um ano em que o investimento, que deveria liderar essa recuperação, fique aquém.

Você mencionou choques externos, como a crise da Argentina. Em 2020, apareceu o coronavírus. Nos últimos anos, quanto do entrave no crescimento pode ser atribuído a questões externas e quanto a questões internas?

É preciso pontuar que o cenário doméstico tem sido relevante diante dessas dificuldades de criar um ambiente estável e reformas estruturais. Essas dificuldades evitam um crescimento de 3%. Se o mundo ajudar, o PIB pode crescer 2%. Se não ajudar, o crescimento é de 1%. É mais ou menos esse o nosso intervalo.

O Brasil precisa fazer um esforço para aumentar a capacidade de crescimento potencial mais elevado no médio e longo prazos, independentemente do cenário internacional. São questões de fundo mais estrutural que permeiam a nossa economia há muito tempo.

Quais medidas poderiam ser adotadas, por exemplo?

Um exemplo importante é o ambiente de negócios no Brasil. Ele é muito disfuncional e acaba beneficiando empresas pouco produtivas e penalizando as companhias eficientes. A empresa produtiva não cresce, não cria mais empregos e inovação. Um ponto muito importante e que leva a esse quadro é o sistema tributário.

É um tipo de reforma que demanda muito apoio entre o Executivo e Legislativo porque eles têm de brigar contra grupos de interesses que se beneficiam desse regime disfuncional. É ruim para a sociedade e para o país, mas é bom para alguns grupos que não precisam inovar porque têm um retorno sem eficiência econômica.

O Brasil precisa avançar em toda a agenda de medidas microeconômicas, como reforma tributária, educação, infraestrutura. A macroeconomia equilibrada, com juros e inflação baixos, permite o crescimento econômico, mas não é suficiente para levar o país a um PIB de 3%. Apenas quando o país realizar essas reformas, pode-se pode pensar num crescimento maior.

Nesse sentido de facilitar o ambiente de negócios, a MP da liberdade econômica foi na direção correta?

Com certeza foi na direção correta. Tem questões pontuais com algumas críticas, mas, de maneira geral, ela vai nessa direção de tornar o ambiente de negócios mais favorável. Mas não é suficiente. O país tem tantos problemas no ambiente de negócio e, portanto, não é resolvendo um só ponto que o país vai resolver todas as questões estruturais. E é isso que a gente sempre tem pontuado: o regime tributário é uma peça muito chave e muito importante nas decisões das empresas.

A reforma tributária foi bastante citada. Ele vai sair este ano?

Eu nunca tive (previsões de) um crescimento muito elevado para 2020 porque é difícil fazer reformas no Brasil, sobretudo uma reforma que tem tanta resistência de grupos de interesse como estamos vendo agora na discussão com o Congresso. Se a gente tivesse talvez um ambiente mais harmônico entre o Executivo e Legislativo, com uma reforma única e conteúdo claro, eu ficaria um pouco mais otimista. Este ano vamos ver muita discussão, mas é um ano eleitoral, o que também dificulta.

Se o cenário fosse um pouco mais otimista, seria possível avançar e ter pelo menos uma parte da reforma tributária saindo este ano, mas eu acho que vai ser difícil. Já fui um pouquinho mais otimista em relação a isso. Este início de ano mostrou que o cenário de reformas no Brasil é bem mais adverso do que esperado anteriormente.

Fonte: G1

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